É notícia! Cana: a modernização é doce, mas o trabalho é amargo

Por detrás dos produtos que consumimos há, quase sempre, uma história triste que não aparece nas campanhas publicitárias. Um exemplo disso é o trabalho nas safras de cana para a produção de etanol e açúcar.

Você vai ler, a seguir,  algumas partes de uma reportagem da ONG Repórter Brasil, importante organização de combate ao trabalho escravo no Brasil. Para conhecer mais sobre o assunto visite o site da ONG. Você irá se surpreender com a quantidade de fatos que passam despercebidos pela maioria da população.

Obs: As imagens foram retiradas do Google.

Um pé no futuro, outro no atraso

Setor de cana se moderniza para competir lá fora, mas grande parte dos trabalhadores ainda é excluída – Reporter Brasil

Por: Vitor Nuzzi, da Revista do Brasil
Publicado em 19/05/2011
 

Começou mais uma safra de cana-de-açúcar. O período 2010-2011 fechou com recorde de 625 milhões de toneladas colhidas, estima a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).  O setor sucroalcooleiro se expandiu e se modernizou nos últimos anos, ganhando o mercado externo, mas não ocorreu o mesmo com as condições de trabalho. Apesar de iniciativas de melhoria, grande parte ainda se caracteriza por jornadas exaustivas, más condições de higiene e de moradia e pouca qualificação. E o processo de mecanização em curso elimina cada vez mais vagas.

“A introdução da colheita mecanizada reduziu em São Paulo a mão de obra braçal, que foi deslocada para o Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso”, diz o padre Antônio Garcia Peres, da Pastoral do Migrante em Guariba, palco de uma greve famosa, em 1984 (leia quadro na página 16). Cidade do interior paulista, a 350 quilômetros da capital, Guariba acostumou-se a receber migrantes principalmente do interior do Maranhão, um dos estados campeões em denúncias de trabalho escravo. Padre Antônio relata que o trabalhador preferiria continuar em São Paulo, porque em outras regiões as condições são mais insalubres e os ganhos, menores. Mas a falta de qualificação e de escolaridade o empurra para onde existir trabalho. “Esse é o grande drama da mão de obra rural do Brasil.” 

Foto de Iolanda Huzak

No início do ano, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo divulgou estudo sobre as condições nas lavouras de cana, baseado em inspeções da Vigilância Sanitária. A cada minuto trabalhado são feitas 17 flexões de tronco e aplicados 54 golpes de facão. As pernas ficam todo o tempo semiflexionadas e há extensão da região cervical da coluna. Por dia, são cortadas e carregadas, em média, 12 toneladas de cana e percorridos quase nove quilômetros. Ao final da jornada, o cortador perdeu oito litros de água. 

O levantamento servirá de base para uma nova regulamentação, segundo a secretaria. “O setor apresenta grandes contrastes na cadeia produtiva. Apesar da alta lucratividade, as condições de trabalho são ruins, geralmente, e põem em risco a saúde dos cortadores”, aponta o padre.

Essa realidade também chamou a atenção do Ministério Público do Trabalho, que em 2008 criou o Plano Nacional de Promoção do Trabalho Decente no Setor Sucroalcooleiro, em parceria com outros órgãos públicos. O objetivo é impedir que a expansão do setor se dê em função de condições de trabalho desumanas. 

Coordenador de forças-tarefa em Alagoas, Bahia e Rio Grande do Norte, o procurador Rodrigo Raphael­ Rodrigues de Alencar, do MPT alagoano, afirma que as fiscalizações precisam se intensificar. “Um único item não cumprido já causa enorme transtorno ao trabalhador. A atividade é quase sub-humana.” Nas fiscalizações de usinas entre 2008 e 2009, que resultaram em dezenas de termos de ajustamento de conduta (TACs) e ações civis públicas, os casos mais comuns encontrados foram falta de exame médico, transporte irregular e ausência de instalações sanitárias, de abrigo para refeições e até de água potável.

Um drama relatado é a fixação de meta de produção, que pode excluir o trabalhador da próxima safra se não for atingida. A média vai de 8 a 12 toneladas/dia por trabalhador. “É bem sofrido mesmo”, diz João de Souza Silva, 25 anos. Em 2007 ele saiu de Timbiras para trabalhar no corte de cana em Guariba, depois de muito plantar arroz, feijão e milho em sua terra. Mora sozinho a poucos metros do local onde todos os dias, a partir das 5h, os trabalhadores esperam os ônibus que vão levá-los às áreas de cultivo. Dia desses foi barrado pelo motorista. Teria reclamado de viajar em pé em um trajeto de mais de duas horas. “É muita estrada de chão”, conta. João perdeu o dia, mas não o ânimo: “Não tem guerra para não enfrentar”. 

Em 25 de junho de 2009, a UNICA – União da Indústria da Cana-de-Açúcar participou do lançamento, em Brasília, de um compromisso nacional para aperfeiçoar as condições de trabalho. O presidente da entidade, Marcos Jank, garantiu que a requalificação dos trabalhadores seria tratada como prioridade. 

“O processo de mecanização acelerou-se por conhecidas razões ambientais e econômicas. No entanto, a perda de empregos no setor ao longo dos anos é uma consequência negativa da mecanização, que agora será devidamente tratada por um amplo conjunto de políticas públicas e privadas no âmbito desse compromisso”, afirmou Jank, para quem a “alma” do acordo será valorizar as melhores práticas trabalhistas. 

Na mesma cerimônia, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou que, “depois de brigar a vida inteira” contra o trabalho insalubre no campo, o desafio mudou. “Somos favoráveis a que esse trabalho insalubre seja cada vez menos feito manual­mente pelo homem. Mas aí entra o outro desafio: onde colocar esses trabalhadores?”

Em 2010, a Unica lançou o RenovAção, um projeto de requalificação. “Um módulo é para dentro da usina, outro é para a comunidade”, diz Maria Luiza Barbosa, assessora de responsabilidade social corporativa da entidade. Assim, os cursos podem ser voltados tanto para outras funções no próprio setor como para demandas específicas por região. Antes da atual safra, praticamente metade dos trabalhadores que passaram pelo projeto já estava exercendo outra atividade.

Para a professora Marcia Azanha Ferraz Dias Moraes, do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, a vinculação da atividade com trabalho escravo ou degradação do meio ambiente  exigiu mudanças. A formalização cresceu e ultrapassou a do cultivo de laranja ou de soja. “O setor melhorou porque o consumidor exige”, afirma Marcia. “O etanol virou produto de exportação. Não tem como vender um produto ligado a isso.”

Leia a reportagem completa em:
http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/59/um-pe-no-futuro-outro-no-atraso/view
 

Para Refletir: 

“O trabalho é a melhor e a pior das coisas: a melhor, se for livre; a pior, se for escravo.” (Émile-Auguste Chartier)

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4 respostas para É notícia! Cana: a modernização é doce, mas o trabalho é amargo

  1. Alex Monteiro disse:

    Gostei do Blog
    Um temática super diferente
    PARABÉNS pela iniciativa
    ^^
    http://cantinhocomtudo.blogspot.com/

  2. Rubi disse:

    O trabalho é extremamente puxado, e pior, mal remunerado. Eles mereciam muito mais, não só dinheiro, mas reconhecimento; ser valorizado como ser humano digno e trabalhador. É muito triste saber que num país de todos, algumas pessoas ainda são submetidas a tal coisa.

    Quanto a sua pergunta, desde pequena ouvia muitos lps do Carpenters com meus pais; a partir daí, passei a conhecer outros nomes como Frank Sinatra, Bing Crosby, Billie Holiday e finalmente, uma diva do cinema, Marilyn Monroe; daí em diante, passei a me encantar por tudo que é antigo. 😀 Também gosta dessa coisa meio retrô ? Temos bom gosto; fato! HAHAHA

    Beijo.
    Até mais!

  3. Gostei do Blog
    Um temática super diferente
    PARABÉNS pela iniciativa
    ^^

  4. Infelismente é a realidade de milhares de trabalhadores que hoje se matam de tanto trabalha isso sem carteiraassinada que ganham só alguns reais por mês

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