“Carne Osso”: o trabalho nos frigoríficos brasileiros

 Por: Tônia Amanda Paz dos Santos (a autora permite cópia, desde que citada a fonte)

A dura rotina de trabalhadores de frigoríficos brasileiros de abate de aves, bovinos e suínos foi o tema escolhido  pela equipe da ONG Repórter Brasil para realizar o documentário Carne Osso, selecionado para a 16ª edição do festival internacional de documentários  É tudo Verdade (2011).

Exposição a instrumentos perfuro-cortantes como facas e serras; realização de movimentos repetitivos (de acordo com a pesquisa, em uma atividade de desossa de aves, alguns trabalhadores chegam a realizar dezoito movimentos em quinze segundos – esforço três vezes superior ao limite estipulado pelos especialistas em saúde do trabalho); ritmo de trabalho excessivo; cobranças de metas; ambientes insalubres e baixas tempreaturas são apenas alguns dos inúmeros riscos diários que envolvem os trabalhos nos frigoríficos.

Segundo a Repórter Brasil (março/2011), uma equipe da ONG percorreu diversos pontos nas regiões Sul e Centro-Oeste à procura de histórias de vida que pudessem ilustrar esses problemas.

De acordo com os diretores Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, em entrevista  para o programa Metropolis, da TV Cultura, a intenção do documentário não é a de chocar os espectadores com cenas impactantes, mas fazer com que as pessoas parem para refletir sobre as condições de trabalho que estão por trás do alimento que consomem e sobre as relações existentes entre as empresas que produzem esse alimento e seus funcionários.

De acordo com o Ministério da Previdência Social, o risco de traumatismos de cabeça ou abdômen em trabalhadores de frigoríficos de bovinos é três vezes maior  do que em outras atividades econômicas. Em se tratando do trabalho em linhas de desossa de frango, o risco de uma pessoa desenvolver uma tendinite é 743% maior do que em outras atividades. Sem falar nos problemas psicológicos gerados pelo ritmo intenso de trabalho e  pressão por produtividade e metas, dentre outros.

E não é apenas sobre o trabalhador que recai o peso desses problemas. O pagamento de pensões e auxílios realizados pela Previdência Nacional, em casos de afastamentos por acidentes de trabalho ou doenças ocupacionais, é um dos principais agravantes da crise vivida atualmente pelo órgão. Veja o que diz Juliana Varandas, terapeuta ocupacional do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) de Chapecó (SC), em entrevista para a Repórter Brasil:

“Cerca de 80% do público atendido aqui na região é de frigoríficos. Ainda é um pouco difícil porque o círculo vicioso já foi criado. O trabalhador adoece e vem pro INSS. Ele não consegue retornar, ele fica aqui. E as empresas vão contratando outras pessoas. Então já se criou um círculo que agora para desfazer não é tão rápido e fácil”

E a situação tende a piorar, se levarmos em conta as projeções para o setor. Desde 2010, o Brasil ocupa o terceiro lugar em exportação de produtos agrícolas do mundo (segundo dados da Organização Mundial do Comércio -OMC). E estudos do Ministério da Agricultura para 2019/2020 apontam que a produção nacional de carnes deverá suprir, até 2020, 44,5% do mercado mundial, o que indica que o Brasil manterá a posição de primeiro exportador mundial de carnes bovina e de frango (O Estado de São Paulo, 2010).

Apesar de tudo, há esperança. E ela está na conscientização. Para Paulo Cervo, auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a solução para quadro esboçado no documentário “basicamente, é conscientizar essas empresas para reprojetar essas tarefas. Introduzir pausas, para que exista uma recomposição dos tecidos dos membros superiores, da coluna. Em algumas vai ter que ter diminuição de ritmo de produção. Nós estamos hoje chegando só no diagnóstico do setor. Mas as empresas ainda refratárias a esse diagnóstico” (Repórter Brasil).

Parecem medidas simples de serem implantadas, no entanto, assim como acontece na maioria das empresas, quando a solução para o problema das condições inseguras no trabalho esbarra na diminuição da produtividade, tudo se torna muito mais difícil. Como se uma coisa inviabilizasse a outra.

Assista ao trailer do documentário Carne Osso¹:

 

1 Ficha Técnica:

Duração: 65 minutos
Direção: Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros
Roteiro e edição: Caio Cavechini
Fotografia: Lucas Barreto
Pesquisa: André Campos e Carlos Juliano Barros
Produção Executiva: Maurício Hashizume
Realização: Repórter Brasil, 2011

 

Para Refletir: 

“Os objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos. Eles só podem ser medidos através da qualidade de vida que proporcionam às pessoas.”  (Lyndon Johnson)

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14 respostas para “Carne Osso”: o trabalho nos frigoríficos brasileiros

  1. nossa, ‘-‘ nem sei oq falar .. o blog é ótimo. Parabéns.

  2. PR disse:

    Gostei desse seu post já assisti a várias matérias sobre esse assunto,até mesmo falando de lugares clandestinos pra abate de animais.Muito bom o seu blog e aproveita passa no meu http://blogdopr-blogdopr.blogspot.com/

  3. PR disse:

    Muito bom essa matéria parabéns pelo seu blog.http://blogdopr-blogdopr.blogspot.com/

  4. Blog Teia disse:

    Oi Amanda
    Ótima matéria,post divulgado na Teia.
    Obrigado por colocar nosso banner.
    Até mais

  5. Rubi disse:

    Antes de mais nada, quero parabenizá-la pela excelente postagem. Não são todos que mostram este lado, até porque convém a mídia mostrar os benefícios que tal coisa pode trazer. Mas os benefícios aí passam longe; tanto para quem produz, prepara ou consome. Sem falar na atrocidade com esses pobres animais. Certamente, o filme deve ser forte, mas infelizmente, é a realidade.

    Parabéns mesmo!

  6. @moarcir disse:

    Que gracinhaaaa. cheiooo de sangue. Top. parece o filme Cadernos de EJA. que isso. muiito sangrento .

    • Pois é, Moacir…sangrento, mas é o que a maioria da população consome…inclusive eu. Como os produtores do vídeo, não faço apologia ao vegetarianismo. Apenas acredito que todas as pessoas devem estar atentas ao modo como os alimentos que consumimos são processados e que façam opções por empresas sérias e que atuam dentro das normas, não apenas da Vigilância Sanitária, mas também do Ministério do Trabalho e Emprego. E depois, quem é que resiste a um bom churrasquinho?

  7. Quanta tristeza.
    Se nós consumidores pararmos de comprar….de comer, isto mudará!
    Pela CuRa do Planeta.
    Pelos animais
    Pelas pessoas!!!!
    Grata pela informação, utilizarei em sala de aula!

    • Olá Claudia,

      É difícil mesmo não nos sentirmos indignados ao conhecer uma realidade tão triste. Infelizmente, o marketing só mostra o lado bom dos produtos que consumimos, a fim de que continuemos comprando cada vez mais, sem pensar nos inúmeros impactos gerados. Não sou radical. Apenas acho que precisamos consumir com um pouco mais de prudência e consciência. Para começar, uma dica é que cada um faça a si mesmo uma perguntinha bem simples cada vez que for tentado a comprar algum produto novo: Será que preciso mesmo disso?

      P.S.: Indico também um documentário muito interessante chamado “A história das coisas”. Está disponível aqui no blog (post: “Já que estamos falando de lixo”). O link é: https://maesso.wordpress.com/2011/06/20/ja-que-estamos-falando-de-lixo/

      Abraços e obrigada pela visita e pelo comentário.

  8. dupirollo disse:

    Olá minha querida amiga Amandita, boa noite!!!
    Minha amiga, aqui em nossa cidade conhecemos muito bem as implicações deste trabalho árduo e repetitivo, temos dois grandes frigoríficos em nossa cidade e um na cidade vizinha, bem próxima, são Marfrig e Bertin, grandes exportadores de carnes de todos os tipos… e ainda temos a cana-de açúcar para produção de álcool e açúcar… nossos hospitais e ambulatórios vivem lotados de acidentados diariamente… uma pena… é preciso encontrar uma maneira de reverter isso.
    Parabéns pela excelente matéria, adorei minha amiga!!!
    Tenha uma noite maravilhosa e abençoada!!!
    Abraços com carinho e muita paz!!!

    • Olá meu amigo,

      É triste pensar que, por trás dos produtos que consumimos, há tanta exploração, não é mesmo? é difícil acreditar que a ganância de alguém possa torná-la um algoz de seus semelhantes. Não faz muito tempo, tornou-se manchete o caso da exploração do trabalho “escravo” na indústria da confecção, com grandes marcas envolvidas. A condição de trabalho nos campos de cana também é outro problema. Como um país que se orgulha de ser um dos maiores exportadores do setor trata com tanto descaso seus trabalhadores? E a fiscalização, cadê? temos uma das mais completas e bonitas legislãções trabalhistas. No entanto, as intenções acabam se tornando mais presentes do que as ações. Isso precisa mudar. Um meio de se conseguir isso é através do consumo consciente. É a demanda que gera a oferta, não o contrário. Se usarmos nosso poder de escolha, dando preferência a produtos de empresas responsáveis, já estamos contribuindo enormemente para mudar esse cenário. Outra forma, é eleger com um pouco mais de consciência (isso até já virou clichê) os nossos representantes para o governo, cobrando deles que cumpram o que nos prometeram. Façamos a nossa parte. Nós, que o podemos.

      Um grande abraço e muito obrigada por compartilhar suas experiências e percepções a respeito do assunto aqui no blog.
      Abraços e volte sempre.

  9. francisco disse:

    Muito boa a matéria.
    Como consigo o dowload desse filme?

    • Amanda Paz disse:

      Olá Francisco. Realmente, é um tema muito relevante e o documentário, muito bem realizado. Até o momento não conheço se há a possibilidade de fazer o download do filme. Entretanto, no Youtube, já é possível assistir ao vídeo.
      Abraços e obrigada pela presença.
      Amanda Paz

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