Tietê, o rio “teimoso”

Por: Tônia Amanda Paz dos Santos (a autora permite cópias, desde que citada a fonte)

Tietê, meu velho, quanta injustiça sofres. As pessoas que sentem vergonha de ti são as mesmas que te aniquilaram, usaram e abusaram das tuas propriedades. Compararam-te, vejas só, ao Aqueronte¹. Ai! quisera eu que elas conhecessem a tua determinação. Acho que não te tratariam assim com tanto descaso, com tanto embaraço, tentando esconder-te dos visitantes. Mas qual. Não há como. Tu és teimoso, meu rio.

Nasces cristalino na serra de Salesópolis, a 1027m² de altitude. Padeces em São Paulo, gemes espremido entre canais ásperos e cinzentos. Mas, como não há mal que nunca se acabe, revitaliza-te aos poucos, a partir de Cabreúva e em  Barra Bonita já estás limpinho limpinho e assim segues até a foz, na cidade de Itapura, a 318m de altitude, onde deságuas no Rio Paraná, provando como é grande tua vontade de resistir. Mas, até quando?

Rio Tietê em Barra Bonita (Crédito de imagem: José Reynaldo da Fonseca)

O Rio Tietê (rio verdadeiro” ou “rio muito bom” em tupi) é apontado como um dos principais fatores para a interiorização de São Paulo e do Brasil.  Martim Afonso de Souza (comandante da primeira expedição colonizadora no Brasil)  o reconheceu como “um rio grande que enveredava pelo continente. Para o poeta modernista Cassiano Ricardo o rio “era uma seta apontada para o sertão, a indicar-lhe o caminho”; O historiador Mello Nóbrega escreveu que “as águas amarelas e quietas do Tietê despertam sonhos de aventuras e riquezas”.

Antes que as mulas ou os caminhos terrestres dominassem a cena, foi o Rio Tietê que propiciou as expedições que enriqueceram e alargaram os horizontes desse Brasil. O rio pode ser considerado pequeno, quando comparado comparado a outros rios que compõem diversas bacias hidrográficas, como o Amazonas e o São Francisco, mas não perde em importância histórica e social.

Primeira Travessia a nado no Rio Tietê em 1924 (Crédito de imagem: Acervo do Clube Esperia)

Infelizmente,  a atuação do homem alterou as condições do primitivo ecossistema e, de modo gradativo, transformou o rio, que de orgulho e prazer  para São Paulo, tornou-se motivo de achincalhe, desprezo e vergonha.

O Rio Tietê foi apelidado de Rio Teimoso, porque insiste em escolher o caminho mais difícil para desaguar. O litoral paulista está a menos de 25km da sua nascente. No entanto, de teimoso que é, o Tietê prefere cruzar todo o interior do estado (1136km de extentensão). Mas, eu acho que o apelido se deve também a sua inacreditável resistência.

E você, caro leitor, da próxima vez que estiver em São Paulo, não se deixe repugnar pelo mal cheiro do rio. Lembre-se de que, aprisionado entre os canais, ele trava uma luta incessante para continuar vivo. E se puder, colabore para que ele, ao menos, tenha uma chance de vencer essa batalha. Não o polua ainda mais.

Rio Tietê na cidade de São Paulo (Crédito de imagem: Site Infoescola)

“O rio que corta a cidade/Está quase morrendo/O rio que morre deu água
Pra gente beber/Em cada curva ele chora/E a gente não vê
Salve esse rio, salve esse tio Tietê” (Ney e Nando)

 ¹Aqueronte é o mitológico rio de águas fétidas e repugnantes, através do qual, Caronte, o barqueiro, leva as almas recém-chegadas ao outro lado, às portas do Hades (mundo dos mortos), onde o Cérbero (o cão de múltiplas cabeças) os guarda, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem e despedaçando os mortais que por lá se aventurassem.

2 Dados retirados do site Rede das Águas

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11 respostas para Tietê, o rio “teimoso”

  1. lollyoliver disse:

    Muito interessante o texto. Sempre bom conhecer a história de paisagens importantes, como a do rio tietê.
    http://lollyoliver.wordpress.com/

  2. Inez disse:

    Seu texto é excelente, além de uma homenagem ao Rio Tietê mostra nas mazelas humanas em relação à natureza.

    • É verdade Inez. Eu havia lido alguns comentários tristes sobre o Tietê e fiquei com um nó na garganta porque conhecia a histórica importância e a luta desse guerreiro por sobreviver mesmo sofrendo, dia após dia, com o descaso e a ignorância daqueles que dele deveriam ter orgulho. Por isso me senti na obrigação de defendê-lo. Como disse o meu amigo Lison, o mau cheiro que exala do rio não é dele. Ele apenas nos devolve o que não lhe pertence.
      Um grande abraço e obrigada por sua enriquecedora participação no meu blog.

  3. LISON COSTA disse:

    Saudações!
    Amiga AMANDA PAZ:
    O seu artigo é grito de alerta voltado à conscientização do zelo imprescindível a um dos mais importantes rios brasileiros. O Rio Tietê é a moldura polida que embeleza o paulistano e demais brasileiros. Hoje, ele chora, outrora, possuía o perfume da vida e descia majestoso, ainda vai prosseguir abrindo a longa passagem, de repente está muito triste e devolve o odor como uma tapa no rosto daqueles que o agridem, pois, o mal cheiro nunca foi dele, não pertence a ele, sabiamente está a devolver o que não lhe pertenceu.
    Parabenizo-a ardorosamente por mais um magnífico Post!
    Abraços,
    LISON.

    • Falou tudo meu amigo: “devolve o odor como uma tapa no rosto daqueles que o agridem, pois, o mal cheiro nunca foi dele, não pertence a ele, sabiamente está a devolver o que não lhe pertenceu”.
      Como forasteira, durante o tempo em que morei em São Paulo, sempre me entristeci pelo modo como o paulistano trata o seu rio, que outrora tanto lhe foi útil. Até cheguei a participar de algumas manifestações como a campanha Viva o Tietê.

      Você não imagina como é difícil conquistar o comprometimento das pessoas em questões como essa. Parece que as pessoas não querem assumir uma responsabilidade que, na realidade, não é apenas dos governantes, mas delas também. De todos nós.
      Obrigada pelo apoio de sempre. Seu comentário mostra que, por mais árdua que seja, essa luta vale a pena.
      Abraços,
      Amanda Paz

  4. Paulo disse:

    Olá Tônia,

    artigos como este são muito importante para conscientização da população e autoridades sobre a preservação de nossos recursos hídricos.

    abraço

    Paulo

  5. charlesnetto disse:

    **Realmente retornei para uma leitura mais detalhada e não pude ficar sem ter que tirar uma pequena parte do seu material editado visto ser muito esclarecedor e explicativo a respeito do seu tema bem assim: “O Rio Tietê foi apelidado de Rio Teimoso, porque insiste em escolher o caminho mais difícil para desaguar. O litoral paulista está a menos de 25km da sua nascente. No entanto, de teimoso que é, o Tietê prefere cruzar todo o interior do estado (1136km de extentensão). Mas, eu acho que o apelido se deve também a sua inacreditável resistência.”**

    • Olá meu amigo,

      Realmente, é a grande capacidade de regeneração que a natureza possui. O Tietê é um bom exemplo dessa força. Apesar de parecer 'morto” em São Paulo, ele é um rio vivo e que luta para continuar assim, apesar dos pesares. Mas, até quando?

      É uma pena que as pessoas não enxerguem o potencial e a importância desse rio e desistam dele. Eu já naveguei pelo Tietê limpo lá em Araçatuba. Conheço a importância e o potencial desse rio. Já participei de manifestações como a “Viva o Tietê” e de ações da S.O.S Mata Atlântica. Entretanto, é preciso que a população, como um todo, sensibilizem-se para o problema e se mobilizem, cobrando medidas e não poluindo ainda mais o rio.

      Contaram-me que ontem, no Jornal Nacional, passou uma reportagem tratando exatamente sobre tudo o que eu escrevi no meu post. Certamente a Rede Globo tem uma visibilidade muito maior do que o meu blog. Hehe! Tomara que caia a ficha do povo!

      Um grande abraço e obrigada pela participação e apoio de sempre.

  6. Tatiane Maria disse:

    Menina,
    eu estou emocionada com a sua postagem, poucas pessoas falam do Rio com tanto carinho… e você é “forasteira” na cidade de SP e dá mais valor “ao que é deles” do que eles mesmos.
    Eu preciso repetir o que Lison disse:
    “devolve o odor como uma tapa no rosto daqueles que o agridem, pois, o mal cheiro nunca foi dele, não pertence a ele, sabiamente está a devolver o que não lhe pertenceu”
    Acho que não se faz necessário adicionar mais nenhuma vírgula a isto.
    Parabéns, vou guardar seu blog.

    • Olá Tatiane,

      Fico feliz por ter conseguido sensibilizá-la a este ponto. Eu realmente me sinto profundamente amargurada quando ouço os paulistanos falando tão mal do seu rio, quando grande parte da culpa por ele estar com está é deles mesmos. O nosso amigo e poeta Lison sabe mesmo como usar as palavras. Eu também concordo que ele conseguiu sintetizar todo esse sentimento de indignação nesta frase que você citou.

      Um beijo e obrigada pela participação e pela visita ao meu blog.

      • Tatiane Maria disse:

        ô gracinhaaaa 🙂
        voltei… pra agradecer vc ter retribuido à visita e pelos elogios ao trabalho e tudo o mais, fiquei feliz com sua presença lá, vá quantas vezes quiser tomar “cafézin” comigo tá rsrsrs

        Perdoe minhas mineirices rsrsr

        Eu conheço o rio e o mal cheiro que vem de suas águas resultado da negligência da população e de fato continuo afirmando que sua sensibilidade e carinho ao falar do rio é tocante, mais ainda por ler em seu perfil que você não nasceu aí e passou parte de sua vida em outros lugares, e portanto, você poderia simplesmente chegar aí e fazer sua caminhada, ir atras de seus objetivos e dane-se o resto, mas você faz diferente, se importa não só com o local a que pertence mas ao global a que pertence, essa consciência é bonita de ver, de reconhecer. Eu sempre sou muito sensível às questões ambientais, tenho um absoluto respeito pelo que nos foi dado de graça e uma absoluta gratidão à natureza.

        Bom fim de semana pra você Amanda

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