Irradiação de Alimentos já é legal no Brasil

Por: Tônia Amanda Paz dos Santos (a autora permite cópia, desde que citada a fonte e/ou indicado um link para este site)

O Ministério da Agricultura, através da Instrução Normativa nº 9, publicada em fevereiro deste ano, reconheceu o uso da radiação ionizante como tratamento fitossanitário, isto é, na prevenção da  introdução ou disseminação de pragas quarentenárias¹. Com isso,  o Brasil passa a ter mais chances de expandir as exportações de frutas para os mercados mais exigentes.

Símbolo da Irradiação em Alimentos (imagem encontrada no site Portal do São Francisco)

A irradiação de alimentos – como é conhecida essa técnica – consiste na exposição de alimentos, já embalados ou a granel, a uma quantidade controlada de radiação ionizante², por um tempo determinado e com objetivos bem definidos.

A irradiação auxilia no retardamento da deterioração do alimento, uma vez inibe a multiplicação de microrganismos que atuam sobre eles, como bactérias e fungos, alterando sua estrutura molecular. Além disso, contribui para desacelerar a maturação e envelhecimento de algumas frutas e legumes, através da modificação do processo fisiológico dos tecidos da planta, aumentando sua vida útil.

Os efeitos causados nos alimentos irão depender do tipo de alimento que recebe o tratamento  e da dose de irradiação que está sendo aplicada. Dentre esses efeitos, podemos citar:

  • Inibição de brotamentos;
  • Retardo na maturação; 
  • Redução da carga microbiana; 
  • Eliminação de microorganismos patogênicos; 
  • Esterilização;
  • Desinfecção de grãos, cereais, frutas e especiarias.

Controle de maturação da banana (Crédito de imagem: Site de divulgação do Cena-USP)

Outra grande vantagem desta tecnologia é que ela é limpa, isto é, não deixa qualquer tipo de resíduos no alimento. Como as doses médias aplicadas são baixas, não há risco de contaminar o consumidor ou o ambiente. Além disso, as propriedades físicas, químicas, nutritivas e sensoriais do alimento conseguem ser preservadas.

O que pode inibir o uso comercial da radiação em alimentos é o alto custo dessa tecnologia. Além do mais, pode haver certa resistência do consumidor em adquirir esses alimentos. Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, a irradiação não os torna radioativos.

No Estado de São Paulo as empresas EMBRARAD (Empresa  Brasileira de Radiações) e a CBE (Companhia Brasileira de Esterilização) já se especializaram na área de irradiação de alimentos e outros materiais, o que pode beneficiar o produtor e a indústria que não podem ter o próprio irradiador.

Pesquisador Julio Marcos Melges Walder, do Cena-USP, com um irradiador usado nos experimentos (Crédito de image: site de divulgação do Cena-USP)

A seguir, um quadro que demonstra a eficácia da radiação ionizante em prolongar o tempo de vida útil dos alimentos. 

Produto

Vida útil sem irradiação

Vida útil com irradiação

Alho

4 meses

10 meses

Arroz

1 ano

3 anos

Banana

15 dias

45 dias

Batata

1 mês

6 meses

Cebola

2 meses

6 meses

Farinha

6 meses

2 anos

Legumes e Verduras

5 dias

18 dias

Papaia

7 dias

21 dias

Manga

7 dias

21 dias

Milho

1 ano

3 anos

Frango refrigerado

7 dias

30 dias

Filé de pescada refrigerado

5 dias

30 dias

Morango

3 dias

21 dias

Trigo

1 ano

3 anos

FONTE: LIARE –  Laboratório de Irradiação de Alimentos e Radioentomologia -CENA/USP
 
Para mais informações sobre o assunto, acesse o site do Cena – Centro de Energia Nuclear na Agricultura | USP .
 

Curiosidades:

1. A edição de setembro de 1955 da revista Life trazia uma reportagem sobre uma experiência com alimentos irradiados durante o pós-guerra. O título da matéria era: “Conscientious Eaters of Atomic Diet”, que pode ser trazudido como “Comedores Conscientes de uma Dieta Atômica”. A experiência consistia na participação voluntária de jovens, que, em substituição do serviço militar, fariam parte de um estudo para ajudar a descobrir os possíveis riscos que a ingestão de alimentos tratados com radiação poderia implicar.

Tradução: “Tomando o café da manhã com outros voluntários, John Meyer lambe, conscientemente, as gotas de gordura da frigideira na qual o bacon irradiado foi frito” (Revista Life, setembro de 1955)

O resultado do experimento, a longo prazo, seria importante para os militares, uma vez que, além de manter os alimentos próprios para o consumo por períodos mais longos, a técnica poderia contribuir para a saúde das tropas ao eliminar certas doenças transmitidas pelos alimentos. 

De acordo com a metéria da Life, não foram observados efeitos nocivos nos primeiros exames realizados com os voluntários, uma vez que a dose de radiação nuclear utilizada nos alimentos era baixa. No entanto, não podemos deixar de observar que o experimento era arriscado. Na época, os efeitos da irradiação nuclear nos alimentos ainda não eram conhecidos. Como se isso não bastasse, cerca de dez anos antes (1945) havia acontecido a detonação das bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki, no Japão. Coragem pouca é bobagem!

2. Nem todos os alimentos podem ser irradiados. O leite, por exemplo, adquire um sabor impalatável. Por isso, antes de se adotar essa técnica para conservar determinado alimento, são feitos diversos estudos de suas características.

3. Campanhas em países que já utilizam  a técnica, como México e França, demonstraram que, quando esclarecidos, os consumidores passaram a preferir os produtos irradiados devido a sua melhor qualidade. 

4. De acordo com a OMS, alimentos irradiados com doses de até 10KGy não necessitam de avaliação toxicológica ou nutricional. Os alimentos irradiados consumidos no mundo, normalmente, recebem muito menos do que essa dosagem, entre 1 e 2 KGy.

5. No Brasil, alguns condimentos e corantes utilizados na elaboração de alimentos industrializados recebem o tratamento com radiação. Pode-se verificar nas nas embalagens de alguns produtos, como Ruffles sabor churrasco da Elma Chips, a informação de que, conforme a lei, os condimentos presentes no produto foram tratados pelo processo de irradiação. Ou seja, a gente já consome esses produtos e nem se deu conta. 

 
¹ Praga quarentenária é todo organismo de natureza animal e/ou vegetal, que estando presente em outros países ou regiões, mesmo sob controle permanente, constitui ameaça à economia agrícola do país ou região importadora exposta. Tais organismos são geralmente exóticos para esse país ou região e podem ser transportados de um local para outro, auxiliados pelo homem e seus meios de transporte, através do trânsito de plantas, animais ou por frutos e sementes infestadas (Fonte:  Agência de Informação Embrapa).
² Radiação Ionizante é qualquer radiação que retira ou desloca elétrons dos átomos, produzindo íons (Fonte:Glossário – CNEN- Comissão Nacional de Energia Nuclear).
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