Belo Monte: Por que não aprendemos com erros passados?

Por: Tônia Amanda Paz dos Santos (a autora permite cópia, desde que citada a fonte e/ou indicado um link para este blog)

Entre o final da década de 70 e início da década de 80, foram iniciadas as obras da hidrelétrica de Balbina. Localizada no rio Uatumã, no município de Presidente Figueiredo (Amazonas), sua construção causou, na época, muita discussão sobre viabilidade da obra, em razão da relação desproporcional de custo-benefício: a potência que a usina iria gerar era considerada insuficiente, enquanto que a previsão dos impactos negativos (tanto ambientais quanto sociais), resultantes de sua implantação, eram considerados gravíssimos. 

Os estudos ambientais realizados, contudo, não tiveram qualquer relevância para a decisão sobre a implantação do empreendimento -fato que, hoje, não é de causar surpresa, visto o caráter secundário exercido pelo Meio Ambiente, naquela época. Ainda assim, a hidrelétrica de Balbina foi considerada, por muitos especialistas, uma obra faraônica desnecessária. Uma afronta e um descaso para com a população e a natureza. Qualquer semelhança com a polêmica de Belo Monte não é mera coincidência. Demonstra a nossa peculiar propriedade de não aprender com os erros passados.

Em 2007, o pesquisador Efrem Ferreira, do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas-Inpa – em ocasião da finalização de um trabalho seu, sobre a análise do impacto ambiental sobre a ictiofauna na hidrelétrica de Balbina, já fazia o alerta: “o que podemos fazer agora é procurar evitar que anos perdidos, como em Balbina, ocorram em outras construções, para que possamos minimizar impactos ambientais ocasionados por estes empreendimentos. Afinal, tudo que diz respeito a impacto ambiental na Amazônia deve ser cuidadosamente estudado, uma vez que a biodiversidade aqui é enorme”.  

Hoje revista, a decisão sobre aconstrução da UHE Balbina possui uma atenuante, ao ser considerada a partir dos paradigmas em vigor na época, em que o enfoque dado ao meio ambiente não é o mesmo do praticado atualmente. O mesmo argumento não pode ser utilizado para justificar as decisões a respeito da construção de Belo Monte. Não podemos aludir, nem mesmo, à antiga urgência pelo progresso de uma região pouco habitada e com inúmeras riquezas naturais. Hoje, os conflitos são outros, talvez, muito mais egoístas. 

Precisamos entender que crescimento e desenvolvimento não são sinônimos. Apesar de contarmos com uma legislação ambiental bastante protetiva, as intenções parecem sempre mais eficazes do que as ações. Construir represas a qualquer custo pode ser mais fácil e mais visível – em curto prazo – do que empreender uma política de desenvolvimento sustentável. Entretanto, ao olharmos para o passado, podemos perceber que os caminhos mais fáceis nem sempre são os mais acertados. 

Longe de justificar posturas maniqueístas e inflexíveis, o que se defende, aqui, é o respeito às pessoas e a implementação de um  desenvolvimento que busque conciliar o uso racional dos nossos recursos com a promoção da qualidade de vida para todos. Algumas vezes, a despeito do que dizem os mais conservadores, velhos problemas pedem soluções novas.

Charge de autoria do cartunista Zé da Silva (Google Imagens)

Anúncios
Esse post foi publicado em Artigos, Meio Ambiente e marcado , . Guardar link permanente.

9 respostas para Belo Monte: Por que não aprendemos com erros passados?

  1. Paulo disse:

    Buenas Amanda,

    parece que Estudos de Impacto Ambiental, Relatório de Impacto Ambiental e opinião pública não servem para nada em detrimento da vontade de alguns. O vale é a ganância e dinheiro que estão sempre presentes em assuntos como este.

    Bju

    Paulo

    • Olá meu amigo,

      O que você tem muita razão, viu? que democracia é essa propagandeada em época de eleição, quando o clamor do povo não é ouvido.? Qunado prevalece a vontade de alguns, quando o que deveria prevalecer era a vontade coletiva? esse é um filme que já foi visto e ainda lembramos do seu final.

      Um grande abraço e muito obrigada pela presença e participação.

  2. Olá estive trabalhando na região de Porto de Moz – PA no ano passado e percebi que muita gente na cidade era favorável a implantação da Barragem. Motivo: emprego!
    Sou contra a implantação. Não há como mensurar os impactos futuros para a região. Abraço e parabéns por seu blog!

    • Olá Alexandre,

      Eu imagino e compreendo essa expectativa por parte daquela população. Entretanto, as obras na usina não irão durar para sempre, não é mesmo. Imagine o que será de todas as pessoas (inclusive as inúmeras que virão de outras cidades) quando as obras acabarem? haverá uma superpopulação de desempregados no local. Só para citar essa questão. É preciso que se pense em todos os impactos, não apenas ambientais, mas também sociais, econômicos, etc. Não sou contra o desenvolvimento da região, mas que ele seja um desenvolvimento para valer e não uma fantasia, que, muito provavelmente, irá se mostrar frustrante no futuro.

      Eu morei em Carajá, no Pará, no início dos anos 80, em Manaus por dez anos, entre as décadas de 80 e 90, perto de Presidente Figueiredo e de Balbina e sei como é a situação da região.
      Muito obrigada por compartilhar suas experiências e suas reflexões aqui no blog. Também penso como você.
      Um grande abraço e volte sempre que quiser.

  3. Pingback: Por que não aprendemos com erros passados? | Agregador, divulgador, linkador de blogs e sites

  4. Blog Teia disse:

    Olá Amanda.
    Bom ve-la de novo no blog Teia, você sabe que é sempre bem vinda.
    Postagem divulgada.
    Até mais

  5. pokeda.info/ pcmso/ pgr/ treinamentos/ mobilizao e desmobilizao de obras.

  6. Bruno Moraes disse:

    Muito bacana seu alerta, Tônia. O que me deixa mais perplexo com nossos amigos lá de Brasília é a falta de criatividade para repartir entre eles dinheiro público, porque este objetivo tá mais que na cara (política+obras=corrupção). Quando você disse “intenções parecem sempre mais eficazes que ações”, você sintetizou tudo. Para mim não seria radical nem descortês dizer que isso tudo é um ganancioso projeto ladrão e inconsequente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s